Monday, March 13, 2006

O Sobrevivente


(POR: Gianpaolo Celli)

Finalmente havia acontecido! Você chegara na noite anterior junto com diversos outros jovens. Garotos na verdade, como você. Garotos com tolas fantasias de herói a quem algum idiota conseguira convencer que havia honra em tornar-se um assassino.
Assim ali estava você, tiritando de frio, sentado na escuridão, aguardando em silêncio pelo início do dia, pois a ação começaria com o nascer do sol.
– Daqui a menos de cinco minutos... – você ouviu um dos mais velhos comentar enquanto olhava para o brilho tênue que surgia no horizonte. – o velho sempre começa com o sol!
O peso e a dor em seus braços começaram a incomodar mais após aquelas palavras, assim como a câimbra em suas pernas. A comida em seu estômago começou a borbulhar, um gosto acre tomou conta de sua boca e todo seu corpo começou a tremer. Você quase saltou quando sentiu o toque estranho em seu ombro.
– Calma, garoto... – ele falou, lhe oferecendo um cigarro.
Você não respondeu, não conseguiria. Queria lembrar-se de quando primeiro teve o peso de uma arma nas mãos, de quando havia sentido o poder que ela transmitia... lembrar do recente orgulho do uniforme, a felicidade besta de seu pai, o choro de sua mãe, a tola inveja de seu irmãozinho. Tudo aquilo lhe parecia estúpido agora, quando as únicas palavras que lhe vinham à mente eram “dor” e “morte”.
– Tome aqui! – continuou ele colocando uma garrafa na sua frente. – É só ansiedade. Mas dizem que ela é o pior da batalha. Dê um gole que isso passa. Depois você se acostuma... o importante é não pensar nisso.
Foi um grande gole que o fez tossir forte quando o liquido desceu queimando e um segundo depois e você já estava mais calmo. Na hora você nem pensou naquelas palavras, em como você haveria de tornar-se uma besta para se acostumar com uma situação como aquela. Mesmo assim agradeceu com um gesto.
Os minutos se tornaram segundos e, finalmente, a ordem foi dada. O troar dos canhões da retaguarda chegou a seus ouvidos pouco antes do fulgor mortífero das explosões, longe demais para serem ouvidas. O rosnar metálico dos blindados surgiu um momento antes de sua passagem por entre as trincheiras. Mesmo assim vocês continuavam ali parados, esperando.
– São morteiros! – você ouviu, como uma resposta a seu pensamento do que seria aquele som agudo sutil que lhe chegava aos ouvidos. Foi então que tudo a sua volta começou a explodir.
Do nada pedaços de dois ou três companheiros seus caíram a seus pés, semidestroçados. Antes que sua mente se conscientizasse do acontecido, entretanto, antes que corpo pudesse se lembrar que existia um estomago e comida para vomitar todos a sua volta se lançaram correndo e urrando num êxtase bestial. Rifles nas mãos, baionetas em riste buscando alguém para matar, buscando evitar ser ferido, morto...
O quanto durou aquela carnificina chamada de batalha você não pode calcular. Não se lembra de haver parado para olhar o que estava acontecendo, no que você mesmo fazia. Coisas disformes pareciam tombar a sua volta, ao seu lado as vezes, as suas costas e a sua frentes sem que seus olhos injetados percebessem o que acontecia. Você não ouvia nada a não ser os rosnados que pareciam sair diretamente de dentro de sua cabeça. Suas mãos iam e vinham repetidamente, as vezes livres, as vezes parecendo cortar uma gelatina estranha, liquida, quente...
O sol já estava alto no céu quando seu corpo cedeu a tudo aquilo. Suas pernas e braços não agüentavam mais se movimentar, carrega-lo em meio àquilo tudo. E assim você caiu de joelhos, arfando como touro, seu uniforme molhado de suor e sangue.
Foi só então que, olhando em volta e vendo os corpos mutilados, retalhados; ouvindo os gemidos e gritos dos feridos; sentido o cheiro de sangue, num baque você tomou consciência de tudo aquilo.
De súbito surgiu-lhe uma vontade de sair dali gritando por piedade e misericórdia por seus atos, por tudo que acontecera, insano... Antes disso, porém, suas mãos inconscientemente buscaram sua face, seu corpo, num rompante de autopreservação, e ali você ficou, chorando como uma criança, pois havia sobrevivido àquilo tudo e estava são... chorou pois se tornara um sobrevivente, um veterano, uma besta que terminaria se acostumando com tudo aquilo.

FIM
11/10/05